Como uma Picada de Carrapato Pode Levar a Alergias Alimentares

O carrapato da estrela solitária, urticárias, alergias, doenças autoimunes como artrite, e doença inflamatória do intestino e doença de Cronh

No início, o Aristóteles definiu duas formas de vida no planeta Terra: plantas e animais. Dois mil anos depois, o microscópio ótico foi inventado e descobrimos organismos unicelulares minúsculos, como as amebas. Depois, o microscópio eletrónico foi inventado e descobrimos bactérias melhor caracterizadas. Finalmente, em 1969, os biólogos reconheceram os fungos como uma categoria separada, e tivemos pelo menos cinco reinos da vida desde então.

No meu vídeo, Qualidade Superior Pode Significar um Risco Mais Elevado, falo sobre as potenciais desvantagens do consumo de proteínas provenientes do nosso próprio reino, tais como o impacto que as nossas proteínas animais companheiras podem ter no aumento da produção no nosso fígado de uma hormona de promoção do cancro chamada IGF- 1.

Em Comer Fora do Nosso Reino, falei sobre outras potenciais vantagens de se mergulhar preferencialmente nos reinos das plantas e dos cogumelos para o jantar, não só do ponto de vista da segurança alimentar (estamos mais propensos a ser infetados por agentes patogénicos de origem animal do que com a doença holandesa do olmo), mas por causa do potencial para reactividade cruzada entre as proteínas animais e as proteínas humanas. É mais provável que o nosso sistema imunitário fique confundido entre uma perna de galinha e as nossas próprias pernas do que com uma banana, portanto, pode haver menos potencial para desencadear uma reação auto-imune, como as doenças cerebrais degenerativas ou artrite inflamatória (Vejam Dietas e Artrite Reumatóide). Ao atacar uma proteína de carne animal estranha, alguns de nossos próprios tecidos compostos de forma semelhante podem ser apanhados no fogo cruzado.

Não são apenas as proteínas. Se você se lembra da história da Neu5Gc (vejam A Molécula Inflamatória da Carne Neu5Gc), o ácido siálico dos outros animais pode causar inflamação nas nossas artérias (vejam Moléculas Não-Humanas a Forrarem as Nossas Artérias) e ajudar tumores da mama e outros cancros humanos a crescerem (vejam Como os Tumores Usam a Carne para Crescer: Xeno-auto-anticorpos). Agora, uma nova volta foi adicionada à história.

A razão por que a Neu5Gc desencadeia inflamação é por os seres humanos terem perdido a capacidade de produzi-la há dois milhões de anos atrás, e por isso, quando o nosso corpo está exposto a ela através de produtos de origem animal, ela é tratada como uma molécula estranha, causando inflamação. Mas há também outro oligossacarídeo, chamado alfa-gal, o qual os seres humanos, chimpanzés, e macacos perderam a capacidade de produzir há 2 milhões de anos atrás, mas que ainda é produzido por uma variedade de animais, incluindo muitos animais que comemos.

Os anticorpos anti-gal podem estar envolvidos num número de processos nocivos que podem resultar em doenças alérgicas, auto-imunes, e semelhantes às auto-imunes, tais como os distúrbios auto-imunes da tiroide. Vemos níveis mais elevados de anticorpos anti-gal em vítimas da doença de Crohn. Estes anticorpos até reagem contra cerca de metade dos tumores da mama humanos, e podemos encontrá-los em placas ateroscleróticas nos pescoços das pessoas. Contudo, todos estes são riscos principalmente especulativos. Sabemos que os alfa-gal são um grande obstáculo para transplantar órgãos de porcos, como rins, em pessoas, porque os nossos corpos rejeitam as alfa-gal como sendo estranhos. Na verdade, pensa-se que os alfa-gal sejam o principal alvo para os anticorpos anti-suínos em humanos.

É interessante que, se olharmos para aqueles que se abstêm de carne de porco por qualquer motivo, eles têm menos células imunes específicas de suínos na sua corrente sanguínea. Os pesquisadores especulam que a ingestão oral de porco poderia transportar moléculas de suínos para a corrente sanguínea através de linfócitos infiltrantes do intestino para iniciar a resposta imune. Logo, podemos ter uma reação alérgica também ao comer rins de porco, mas essas alergias graves à carne foram consideradas raras, até que um relatório pouco comum veio à tona. Descrito pela primeira vez em 2009, o relatório incluiu detalhes sobre 24 casos de alergias à carne desencadeadas por picadas de carrapatos.

Dentro de um ano, tornou-se óbvio que os casos deviam ser contados em centenas, em vez de dezenas. Por volta de 2012, haveram milhares de casos ao longo de uma grande área do sul e do leste dos Estados Unidos, e novos casos estão agora a aparecer em vários países por todo o mundo.

O culpado, o carrapato da estrela solitária, assim chamado porque as fêmeas têm uma mancha branca na sua parte traseira, é famoso por causarem a doença de Masters, uma doença semelhante ao síndrome de Lyme, também conhecido como STARI (doença exantemática do sul associada a carrapatos). Mas, graças ao carrapato da estrela solitária estar constantemente a expandir o seu alcance (mesmo tão longe quanto Long Island, NY), não é necessariamente tão do Sul.

Qual é a relevância de picadas de carrapato para a produção de anticorpos anti-carne que causam alergia aos alfa-gal? Boa pergunta. O que sabemos é que, se se for mordido por um destes carrapatos, pode-se desenvolver uma alergia à carne (Vejam Alpha Gal e o Carrapato da Estrela Solitária). Este parece ser o primeiro exemplo de uma resposta a um parasita externo dando origem a uma importante forma de alergia alimentar. Não sabemos o mecanismo exato, mas poderá ser por haver algo na saliva do carrapato que está em reatividade cruzada com os alfa-gal, ou por o carrapato estar a injetar-nos com alergénicos de animais da sua última refeição.

Que papel poderão desempenhar estas alergias induzidas por picadas de carrapato no desenvolvimento de urticária crónica e outras reações alérgicas na pele em crianças? Vejam Picadas de Carrapato, Alergias à Carne e Urticária Crónica.

Eis alguns vídeos a desenterrarem a história da IGF-1:

A Neu5Gc foi o que abriu toda essa lata de vermes:

Pergunto-me se os alfa gal estão a desempenhar um papel nas melhorias na artrite e na doença de Crohn em dietas à base de plantas: Tratamento Dietético da Doença de Crohn e Dieta e Artrite Reumatoide.

PS: Se ainda não o fez, pode subscrever aos meus vídeos gratuitamente aqui e ver as minhas apresentações ao vivo de análise anual:

Com saúde,

– Dr. Michael Greger

Crédito de imagem: USGS Bee Inventory and Monitoring Lab / Flickr
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Atribuições

Como uma Picada de Carrapato Pode Levar a Alergias Alimentares

Traduzido do original “How a Tick Bite Can Lead to Food Allergies”, escrito por Dr. Michael Greger a 25 de Agosto de 2015 no blog de nutrição médica do Dr. Greger em NutritionFacts.org

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